História – Música Eletrônica em BH

Os fios da história

Mesmo recente, a música eletrônica em Belo Horizonte tem trajetória que passa por várias vertentes da cultura pop, da black music � s festas pilotadas por DJs

Mariana Peixoto – O Estado de Minas Cultura

História em início de construção, a música eletrônica em Belo Horizonte encontra personagens que, num primeiro momento, parecem não ter pontos em comum. Há quem remonte aos anos 70 quando, sob ditadura, grupos de jovens de reuniam na Renascença e no Sindicato dos Bancários para bailes de black music. Há outros que vão uma década � frente, quando bandas de músicos mineiros, sob a influência de Joy Division, New Order, Devo e Talking Heads, começaram a usar elementos eletrônicos em suas bandas. Há ainda a turma que começa a contar a partir de Anderson Noise.

Cada um dá sua versão mas a explicação de John, guitarrista do Pato Fu, ajuda a clarear a situação. “Eu diria que é quase uma história separada dentro da evolução da eletrônica nas bandas pop. O que originou a música eletrônica é uma turma que sempre gostou de pista e que estava mais próximo da house e da disco music. Já a eletrônica na música pop é usada em função das canções. Mais recentemente as coisas se misturaram de maneira mais definitiva, com a sonoridade de um passando para o outro.”

Professor, poeta e músico, Marcelo Dolabela é mais abrangente. “Tudo virou música teoricamente eletrônica. De show até o karaokê, a eletrônica contaminou tudo?. Para os puristas, a eletrônica veio só no final da chamada década perdida. Anderson Noise começou a se interessar por eletrônica em 1987, 1988. A primeira festa em que tocou foi na inauguração de um quarto que o pai o ajudou a construir nos fundos da casa de sua família (onde vive até hoje). Outras festas vieram na seqüência, mas é bom lembrar que das picapes (ele usou vinil desde o início) de Noise saíram também The Cure e New Order.

Mesmo tendo começado anos antes, Anderson Noise considera o início de sua carreira, como profissional, em fevereiro de 90, numa festa que Marcelo Marent fez no Santa Efigênia. Juntos, DJ e produtor protagonizaram os maiores eventos de eletrônica da década passada. Foi justamente na metade dos anos 90 que a cena começou a florescer. A Broaday, extinta casa em Santa Tereza, foi o lugar onde “nasceram” Roger Moore e Jefferson Kaspar. Por aqueles anos seria fundada a Escape, casa noturna que teve vida curta, mas que foi marcada pela passagem de Robinho, que se tornou residente. “A casa era muito grande, o público não assimilava”, lembra.

Quem tem boa memória também se recorda de que a primeira edição do Eletronika, em 99, levou somente 3 mil pessoas em um fim de semana de dezembro na Serraria Souza Pinto. O público foi se (in)formando ao longo das edições do festival tanto que na do ano passado, 15 mil pessoas passaram pelos três dias de evento. Além destes, há muitos outros nomes. Clubes, festas, DJs, bandas, festivais, casas noturnas vão fazendo a eletrônica de Belo Horizonte crescer. O caminho é longo para que a cena se estabeleça. Mas cada um, a seu modo, vem dando sua contribuição.

Festa estranha com gente divertida

Mesmo tendo produzido outras festas num período anterior, Marcelo Marent considera um marco em sua carreira a festa Lifebeat, cujas oito edições foram realizadas entre 94/95. Como ele e Anderson Noise trabalhavam na Vide Bula, desde o começo estavam juntos. “A gente era tecno na veia. Quando comecei com as festas, o Anderson falou que só ia tocar esse tipo de música. Tanto que o povo estranhou, pois era muito pesado?. Marent sempre teve uma preocupação grande com a produção. “As festas do Anderson eram mais ligadas no line up, as minhas, na produção?.

Quem não se lembra? Primeiro com a Lifebeat e depois com a Hyper, Marent criava eventos que mudaram conceitos. Lugares inusitados (tinturaria, frigorífico, espaços históricos como a praça da Estação e a Serraria Souza Pinto), cenários como nunca tinha se visto por aqui – foi a primeira vez que se usou laser em eventos – e uma série de extras – estúdio fotográfico e salão de beleza (sempre com Humberto Resende, o popular Seu Cabelo, que criaria a festa Gentileza, evento que une eletrônica e projetos sociais). O crescimento foi tanto que uma edição da Hyper, no aeroporto de Confins reuniu, no final de 99, seis mil pessoas.

A eletrônica estava virando mainstream. Ainda assim, naquele dezembro de 99 o público esperado para a primeira edição do Eletronika era superior � s 3 mil pessoas que foram � Serraria conferir (ou melhor, conhecer) atrações como o grupo Tortoise. Maior projeto até então realizado pela Motor Music, criada no ano anterior (e que foi fechada esse ano, dando início a outra produtora, a Sacode), entre os sócios tinha Marcos Boffa e Jefferson Santos, que estiveram na produção do BHRIF. “A idéia do Eletronika era resgatar o BHRIF que, na época (1994), teve uma repercussão absurda. Mas cinco anos depois, as coisas não estavam mais no mesmo lugar”, fala Boffa. Santos acrescenta: “O público tem resistência ao novo, até cair a ficha demora.”

Mas as fichas caíram, tanto que o crescimento do público do evento foi substancial. No ano passado, foram 15 mil pessoas (a quinta edição será em agosto). Com a chegada da Motor, um novo momento começava. Além do festival, a produtora promoveu uma série de shows e eventos menores. E não apenas de música. A imagem também foi para o centro da pista. Os VJs entraram em cena. Muitos coletivos – como o F.A.Q. e o Estúdio Mono – foram criados para eventos promovidos pela Motor. Para Marent, na virada da década, também era hora de mudar de formato.

As grandes festas deram lugar ao clube Hyper (na rua Pernambuco, funciona atualmente com o nome de 360º). Ele foi o primeiro de uma série que veio a seguir. O mesmo local deu espaço ao Clube MTV, depois Pillbox. “Por causa dos clubes, as boates héteros de Belo Horizonte pararam de tocar axé e rock nacional”, fala Marent. Em 2000 também nasceu o Club:e, cujos sócios tinham história na noite (Ciao Ciao Jumping Bar, Bwana e UFO).

Os espaços que existem atualmente na cidade acabaram se abrindo para noites segmentadas. A Josefine (criada por Marent) é voltada para o público GLS. Para os projetos para público “careta”, ela se torna a Joy Club Lounge. Na região da Savassi há também o Up Bar e A Obra (que, mesmo sendo voltada para o rock, tem projetos de eletrônica). A eletrônica está nos cafés (Café com Letras, com projetos para DJs e VJs e o Café Tina) e em casas fora daquela região (Deputamadre, na Floresta e Matriz, no Santo Agostinho).

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Batidas do tecno ao trance

DJs, Belo Horizonte tem aos montes. Atualmente. Em meados dos anos 80, início dos 90, a situação era outra. “DJ daqui tocava com fita”, lembra Anderson Noise. Nem equipamento de som os realizadores de festa t

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