Hey, Vj – Final Cut

(Carta Aberta do VJ Palumbo)

Dear friends, ilustríssimos amigos,

Uma cultura começa a ruir quando nessa começa a aparecer sinais claros de conformismo e apatia. O poder da visão é a força guia, é a motivação primária do homem. Um poder a qual nossa sociedade vem tentando engarrafá-la e vendê-la em pequenas doses, em pequenos lotes, com rótulos coloridos de marcas e patentes e estrondosos out-doors alienados à visão primal e ritualístico de toda uma espécie. Se os tambores rufam, eles rufam a decênios, não por diversão ou marqueting, mas por conexão. Um Xaman não possui rabo preso com ninguém, somente com sua verdade.

O visionário sobretudo é um pesquisador de sua condição como ser que interage com seu meio; porém não é uma pessoa incomum a todas as outras e não está livre da condição da ordinária administração cotidiana a qual aflige a todos. Os visionários são seres sintonizados com o exercício consciente do viver que em momentos de profunda nitidez e clareza, talvez motivados pelas altas dosagens de dopamina e seratonina em seus neurônios, trazem a tona essas visões.

Se o conceito vem antes da moda e do modismo, a insatisfação vem antes da atitude. Quem marcha contra cultura de massa é sobretudo um atormentado, um insatisfeito com o ambiente contaminado pelo gesto mecanizado e por sua própria condição que se encontra.

Quero descrever o que aprendi. Aprendi que, a comunicação que se estabeleceu, enquanto numa pista, entre estimulador/estimulado foi direta e positiva, uma aceleração de zero a cem metros rasos de profundo entendimento sensorial cognitivo… Em poucas palavras: o maior tesão completo!

Pude, ainda, nesses anos, experimentar viver no mais profundo estado alterado de consciência e na mais profunda imersão sensorial trance n’dance body n’ soul. Comprovei minha teoria que Arte e Música se complementam e se fundem no benefício sensorial, saindo do lugar comum, da parede branca e fria de uma galeria asséptica, na qual não acredito, para se tornarem poesia vivenciada, pura e intensa. Art shaw be on the rocks and on the streets!

Porém, devo dizer que para mim essa experiência cessa a medida em que ela se auto digeriu, se tornou pesada e incongruente com minha filosofia contra-cultural. Não sou produto e tampouco instrumento de desprezo e desvalor. A partir que minha saúde e o meu respeito na comunidade eletrônica se tornaram pesados a meu ver (e sentir), a experiência se autofagiu, cessou, kaput, fudeu, estou desmotivado até o talo.

Deixo pra traz um legado, uma assinatura, um marco. Dali, daquele momento do meu inicio, desde que cheguei de Amsterdam em 2000, com dois laptops e uma mala cheia de imagens e idéias; houve um desdobramento enorme e representativo do cenário de VJing e isso aqui ninguém poderá contradizer.

E foi esse o meu valor pra cena… E meu momento. Um novo grupo de VJs artistas sensoriais emerge a cada minuto, vorazes, famintos e ávidos por mostrar arte… E igualmente talentosos. (“I mean it!!”) Meu trabalho não se torna então indispensavel.
Quero dizer ainda que levo em minha memória um particular momento, um momento mágico onde eu fudido, quebrado, com a saúde em cacos, saído de um ano inteiro de cama, imóvel e desiludido, fui me apresentar com o pouco de dignidade (que me restava pelo momento pessoal vivido), com a cara e a coragem, no culminante e fatídico Nokiatrends/Sonarsound… Uma performance como nunca fora igual… Eu mesmo não acreditei em mim… Foi ali que pude sentir os Deuses e Deusas celebrando e dançando, Xiva, Buda; uma energia brotando do chão e passando por mim até minhas mãos, passando através do mixer e jorrando de volta para a pista (claro que o cara da luz altamente contribuiu, com seus poderes de relâmpagos e flashes). Ali meus terminais nervosos cintilavam. Aquela mesma energia que nutre o cosmos me manteve ali de pé, um ser cambaleante de bengalas, magro e sem forças, por 6 horas ininterruptas!

Um poder de cura circulou por ali. Ali sim, pude sentir o verdadeiro Nirvana. Estava profundamente tomado. Ali senti o auge do poder de realização do ser humano. As pessoas perto de mim entravam em catarse por observação. Homem e Deus em profunda conexão. Os ritmos frenéticos da música em sincronia com a imagem bombada para o inconsciente imagético! “Fucking Hell”, aquilo era sexo puro! Era AMOR!

Extasy?? Bolex!! Quem viu de perto sabe o que estou falando… Acredito que jamais esquecerão… Inacreditável que esqueceram… E you know what? Aquilo era verdadeiro, aquilo foi História…

É naquela catarse que eu acredito… Não creio que o “environment” possa me dar isso novamente pelo resultado que percebi pela falação que se sucedeu (e pelo eco que ainda insiste em rolar).

Nunca pensei que daquele episódio as pessoas poderiam levar apenas polêmica e chateação “free as charge”, porém isso é passado… Gone, foi, já era. Mamma knows!

It’s time to move on…

Com esta oficializo minha retirada da cena noturna eletrônica, como VJ provocador dos estímulos intra-neuro-modulation. Comunicando que foram cinco anos de intensa pesquisa visual/sensitiva, onde vivi em mais profundo êxtase da experiência vivenciada. Curtimos juntos, foi bom DEEMAAISS!

Para alguns, fui um exibicionista polêmico, uma piada a não ser levada a sério. Para outros, porém, o reconhecimento de que sou artista. Agora tenho outros projetos que merecem minha atenção, um deles é minha saúde que urge cuidados… Não há espaço para imagem pública quando sua imagem física se deteriora… Há muito amor próprio em jogo; antes eu do que distribuir minha arte a quem não tem olhos… E para quem os teve, minhas desculpas pelo “final cut”, realmente estou, acredito estar, incapacitado.

I’ve got go on mammy, things must go on!

Retomo aí minhas atividades como pintor, fotógrafo, artista gráfico, performer e… pesquisador das inter-relações humanas com o Universo em desencanto. Minha responsabilidade agora é com o canvas, com o tubo de tinta e com o pincel… E somente com eles. Farei apenas algumas apresentações seletivas até a total extinção.

A todos muito obrigado, por isso ou por aquilo, que fica na consciência de cada um que circunscreveu sua órbita com a minha.
Love you all and mamma let me go!!

Create love + create respect + create dignity + create loyalty + create tolerance.

ão Paulo, inverno 2005.
VJ Palumbo (Angelo Palumbo) … and don’t call me Charlie!!

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