Techstep e NeuroFunk - O que é isso?

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Leia trecho do livro “Energy Flash” do jornalista Simon Reynolds (PICADOR ISBM 0-330-35056-0). Esse é o trecho onde ele conta como inventou o termo neurofunk, a história do surgimento do techstep e os conceitos por trás do estilo.

Texto original de Simon Reynolds
Tradução para o português a partir do original: André Elias (Akzel) para Fórum DNB Online O texto original pode ser encontrado no antigo site da No U-Turn: http://www.descendingangel.com/nou-turn/intrview/int_srey.html

Tradução: Akzel – Para DNB Online

Apocalypse Noir

Em 1996 um novo sub-gênero do jungle começou a se unir sob o nome de ‘techstep’, um funk do lamento da morte caracterizado por cáusticos timbres industriais e batidas de açougueiro. O termo foi cunhado pelos DJs-produtores Ed Rush e Trace, que formaram o som em parceria com o engenheiro Nico do selo No U-Turn. O ‘tech’ provinha não do techno de Detroit, sonhador e elegante, mas da brutalidade brilhante do hardcore belga do começo dos anos noventa. Pagando tributo aos clássicos R&S como ‘Dominator’ e ‘Mentasm’, e a artistas como T99 e Frank de Wulf, Trace e Ed Rush deliberadamente afirmaram que um elemento da Europa branca estava sendo escrito na história do jungle.

A outra fonte importante para o techstep foi a primeira era do ‘darkside’, com pioneirado pelos artistas da Reinforced como Doc Scott e 4 Hero. Foi quando os DJs adolescentes Trace e Ed Rush perderam seus dentes de leita na produção com clássicos sinitros como ‘Lost Entity’ e ‘Blodcot Artattack’. O nome ‘Ed Rush’ soa como ‘head rush’, uma gíria do começo das raves para um apagão da consciência causado pelo excesso de E’s. Entretanto xiste uma grande diferença entre o darkside de 1993 e o techstep. O dark-core original ainda tinha uma brisa sinistra, densa, na borda entre o amado e o fudido. Em 1996, com o ecstasy já fora de moda, techstep foi moldado por uma outra escolha de fudeção de mente: maconha crescida em hidroponia, ou o chamado ’skunk’, cujo os níveis quase alucinógenos de THC induzem a uma intensificação sensória sem euforia e uma paranóia perfeita para os ritmos de tensão-mas-sem-liberação do jungle.

As primeiras misturas do retorno-� s-trevas foram ouvidas no final de 1995 com o remix de Trace para a faixa ‘Horny Mutant Jazz’ de T.Power & MK Ultra. Trabalhando em conjunto com Nico e Ed Rush, Trace destroçou os sabores de fusion jazz da original em pedaços, trocando pela bateria escorregadia, synths espectrais e um baixo chocante, perturbador sampleado e mutado do clássico Reese de Kevin Saunderson ‘Just Want Another Chance’. Enquanto a faixa da No U-Turn de Ed Rush chamada ‘Gangsta Hardstep’ e ‘Guncheck’ pegava a explosiva energia do hardcore e a implodia, transformando hiper-cineses febril em desconforto grosso como melado. O novo som fazia você se sentir enjaulado em uma panela de pressão de breaks intermitentes e baixo plásmico.

Se o brutalismo belga e os primeiros hardcore breakbeats lembravam bandas de garage punk dos anos sessenta, techstep é como o punk rock dos anos 70, porque não é um simples movimento de volta ao começo, mas um isolamento e intensificação dos elementos mais agressivos não-R&B. Por mais de seis meses, enquanto o esquadrão da No U-Turn nutria o seu som e a sua visão, eles acentuavam os elementos de “ruídos pertubadores” que o punk exagerava no garage rock: riffs de bater-cabeça e médios explosivos. Onde o intelligent drum and bass sofria por uma limpeza obsessiva-compulsiva, a produção do techstep é deliberadamente suja, uma lama densa e um zunido perturbador. O aspecto que define o som No U-Turn era o seu grave - um denso miasma zunindo nas freqüências mais baixas, tão maligno quanto uma nuvem de gás venenoso - alcançado ao alimentar os riffs de baixo através de pedais de distorção de guitarra e uma bateria de efeitos. Outro traço estilístico era que o techstep ostracizou a influência alegre dos breakbeats do jungle em favor de uma simplicidade relativa e um rigor. Embora os breakbeats estejam ainda rolando na norma dos 160-e-subindo BPMs do jungle, o techstep aparenta ser mais lento - fatigado, zonzo, como se tivesse sido abatido. Em faixas como ‘Drumz 95′ do Doc Scott, a ênfase é nos 80 BPM do meio-compasso, fazendo com que você queira bater os pés, não suingar os quadris.

Techstep é um som sado-masoquista. Ed Rush declarou secamente que ‘Eu quero machucar as pessoas com os meus beats’, e um dos lançamentos da No U-Turn tinha a frase ‘missão de machucar’ arranhado no vinil. Essa sentença terrorista está marcada no contraste � retórica dos artistas do intelligent drum’n'bass, com sua fala de ‘educar’ a audiência, ‘abrir a mente’ e ‘aliviar a pressão’ da vida urbana. Sonicamente, a secura do techstep e seus sons secos não poderia estar mais longe do que a corrente de sons relaxantes, que massageiam os músculos que escorrem das mãos de DJs como Bukem e Fabio, todos synths suaves e loops de saxes emprestados de Grover Washington Jnr e Kenny G.

Enquanto os produtores de intelligent e jazz-step se orgulham de sua musicalidade, os produtores de techstep foram ao extremos oposto: abraçaram a ‘anti-musicalidade’. Com a incorporação de seus timbres atonais, graves, sons não-musicais e dissonância de trilha sonora de filmes de horror, a nova sobriedade do artcore (N.T. gíria para hardcore) era muito mais avant-garde do que Bukem. Na confusa necessidade de ‘progredir’ a música eletrônica, os produtores de intelligent drum and bass estavam simplesmente muito deferentes � s idéias tradicionais sobre melodia, arranjos, ‘boas’ texturas, a importância de canções direitas e instrumentação em tempo real, feita pelas mãos.

No final de 1996 produtores como Nasty Habits / Doc Scott, Dom and Roland, Boymerang, E-Sassin, Cyborgz and Optical se juntaram � No U-Turn na sua ‘missão de machucar’. Techstep ganhou uma junção mais industrial ainda, em alguns casos vertendo ao gabba, ou uma atualização acelerada e sincopada dos Swans (N.T. uma banda famosa de punk dos anos 80). Sobre tudo, a música ficou mais fria. O synth-riff inumano na espetacular ‘Shadowboxin” de Nasty Habits cozinha os ouvidos com sua grandiosidade glacial, enquanto sua batida 2-step arrastada sempre me faz imaginar um militarcorrendo sob um céu de bombas Napalm com um lançador de foguetes no seu ombro. A No U-Turn chegou perto de seu ápice com a exultação negra de ‘Squadron’ de Trace / Nico, cujas fanfarras no estilo Carmina Burana-se-tornou-cyberpunk e a foice da própria Morte.

De onde veio essa maliciosa satisfação apocalíptica, essa perversão orgásmica do techstep? Nico descreveu o processo de fazer música - a noite inteira, sessões conduzidas com olhos vermelhos conduzidas na fumaça da ganja - uma experiência horrível que envenenava o sistema nervoso de tensão. Ed Rush disse que fumava maconha deliberadamente para conseguir ‘pensamentos maus e sombrios’, o tipo de skunkanóia sem a qual ele não conseguiria alcançar a vibração certa para as suas faixas. Como em um rap de horrorcore no estilo Wu-Tang, techstep parecia se basear na perseguição ativa da fobia e da psicose como entretenimento. No qual paira a questão: que condições sociais haviam criado tal audiência para uma música que fode com a sua mente tão intensivamente, que parece que ‘não haja diversão’?

Tropas de Choque do Futuro

‘É assim: algumas pessoas são tubarões, outras são iscas. Se você não pode agüentar o calor, saia da cozinha. Dê uma de mulherzinha e se foda. Venha preparado para sair correndo de medo… Nem sempre você pode contar com o E na prateleira para se safar de se ferrar.’- Resposta do correspondente da Breakbeat Mailing List � reclamação de uma carta sobre a vibe sem amor, intimidadora dos eventos de jungle

Se a cultura rave era uma forma deslocada da coletividade da classe trabalhadora, com o seu ‘amor, paz e união’, correndo contra o thatcherismo da atomização social, então o jungle era a música rave depois da morte do ethos rave. Parafraseando a história do Partido Trabalhista de sociedades cooperativas e amigáveis, eu chamaria o jungle de ’sociedade não-amigável’. Desde 1993 e a ida do hardcore � zona do crepúsculo, debates sore ‘para onde foi o amor?’ convulsionaram a comunidade do UK Breakbeat, com história sombrias sobre relatos de assaltos fora dos clubs, lutas e uma vibe do ‘crack’ do lado de dentro. Ravers desencantados saíram para formar então a cena do happy hardcore. Outros defendiam a perda da vibe eufórica, argumentando que a atmosfera do jungle não era temperamental, mas sim ’séria’.

Na ausência do ecstasy o jungle começou a abraçar a idealogia da realidade que guiava a visão do hardcore rap dos Estados Unidos. L Double e Shy Fx na faixa ‘The Shit’, um clássico de 1996, um jump-up descambava um monólogo gangsta: ‘Yo man, there’s a gang of muthaf**kers out there on the d**k…Non-reality seeing, non-reality feeling, non-reality-living-ass muthaf**kas, man. And I don’t know, man, reality, it’s important to me.’ (Cara, tem uma gangue de filhos da puta lá fora, vendo a não-realidade, sentindo a não-realidade, filhos da puta que vivem fora da realidade, cara. Eu não sei, cara, realidade, é importante para mim.) No hip-hop ‘real’ tem dois significados (N.T. Obviamente em inglês). Primeiro significa autêntica, descompromissada, a música que se recusa a se vender � indústria musical. ‘Real’ também significa que a música reflete uma ‘realidade’ constituída pela instabilidade econômica capitalista, o racismo institucionalizado, e o aumento da vigilância da juventude pela polícia. Assim como as faixas ‘Police State’ de T.Power e a neurótica ‘The Hidden Camera’ de Photek: Críticas sem letras de um país que conduz a vigilância mais intensa sobre seus cidadãos no mundo (a maior parte das cidades do Reino Unido têm câmeras nos centros de suas cidades). ‘Real’ significa a morte do social; significa corporações que respondem aos lucros crescentes não aumentando os pagamentos ou aumentando os benefícios, mas diminuindo (demitindo a força de trabalho permanente para criar um grupo de empregos flutuantes de meio-expediente e trabalhadores freelancers sem benefícios ou seguridade social).

‘Real’ é um cenário neo-medieval; você pode comparar essa diminuição � clausura, onde o aristocrata despejava os camponeses de suas terras e reduzia-os a uma subclasse itinerante. Como no gangsta rap, o jungle reflete um cenário paranóico-medieval de barons ladrões, corporações piratas, sociedades secretas e operações encobertas. Assim a popularidade, como uma fonte de samples e nomes de faixas, de filmes de artes-marciais e de gangsters como Poderoso Chefão, Reservoir Dogs, Goodfellas e Carlito’s Way, nos quais o universo gira em torno de conceitos de justiça violenta e honra-no-sangue.

Onde o hardstep gangsta compartilha com o Wu-Tang Clan a visão neo-medieval do capitalismo tardio, o techstep é mais influenciado pela distopia de filmes de ficção científica como Blade Runner, Robocop, Exterminador do Futuro e etcetera, que contém uma mensagem anti-capitalismo subliminar, imaginando o futuro como um retorno � Era das Trevas, completa com as cidades fortalezas e clãs bandidos. Assim surgem faixas da No U-Turn como ‘The Droid’ e ‘Replicants’, ou ‘Metropolis’ de Adam F. ‘Amtrak’, uma faixa do final de 1996 de Trace / Nico se baseia no sample ‘here is a group trying to accomplish one thing - that is, to get into the future’ (’Aqui está um grupo tentando alcançar uma coisa - que é chegar no futuro’). Dadas as paisagens assustadoras do milênio que a No U-Turn pinta, precisamos pergutnar: por que a pressa de chegar lá? A resposta: Na nova Era das Trevas, é o ‘dark’ (as trevas) que irá chegar por si mesmo. Identidade com essa música perturbadora que irá defini-lo como predador e não como presa.

O que você vê no techstep é a força de vontade da tecnologia por si mesma, o motor por trás do capitalismo tardio que irá romper com as prioridades humanas e destruir as comunidades. O nome No U-Turn captura o senso de que não há mais volta. É também uma ressonância política subentendida: Uma das frases mais famosas de Margaret Thatcher é que “Essa dama não é de dar para trás” - sua recusa em se curvar perante a pressão do liberal Tories para fazer um ‘U-Turn’ (em português, retorno) nas políticas conservadoras como a privatização e um desgaste no bem-estar. Essas mesmas políticas lideraram � catastróficas percepção de outro infame pronunciamente de Thatcher: ‘Não existe essa coisa de sociedade’.

O senso persuasivo de se estar entrando em uma nova Era das Trevas, da quebra do contrato social, geram uma ansiedade que é reprimida mas que resurge de maneiras inesperadas e em lugares inesperados. A resistência não necessariamente irá tomar uma forma ‘lógica’ de ativismo coletivo (uniões, política esquerdista); ela pode ser tão distorcida e imaginativamente enriquecida pelas condições do capitalismo em si mesmo, que é expressa por si própria numa espécie de proto-fascismo, uma nostalgia anti-corporativa da milícia norte-americana de direita, ou como uma sobrevivência hiper-individualista.

No jungle, a resposta é um ‘realismo’ que aceita a realidade socialmente construída como ‘natural’. Para ficar na ‘real’ o jeito é confrontar o estado-das-coisas onde cão devora o cão, onde você não é um ganhador ou um perdedor, e geralmente todos são perdedores. Existe uma raiva fria costurada no jungle, mas que é expressa dentro dos termos de um anti-capitalismo em uma política ainda não-socialista, e expressa defensivamente: como uma determinação que o underground não irá se cooptado pelo mainstream. ‘Underground’ pode ser entendido sociologicamente como uma metáfora para a subclasse, ou psicologicamente, uma metáfora para uma fortaleza psíquica: o ‘eu’ sobrevivente, armado e pronto para combate.

O mundo sonoro do jungle é constituído de um realismo social abstrato; quando eu ouço techstep, os beats soam como o colapso de prédios (novos) e o baixo se parece com a malha social sendo dilacerada. O ritmo imprevisível e perigosamente instável do jungle oferece � sua audiência uma educação em ansiedade (e ansiedade, de acordo com Freud é um mecanismo de defesa essencial, sem o qual você estaria vulnerável a traumas). ‘It is defeat that you must learn to prepare for’ (’É para a derrota que você precisa estar preparado’) é o que diz no sample de filme de arte marcial na ‘The Cult’ do Source Direct, uma faixa que foi pioneira no estilo pós-techstep que eu chamo de ‘neurofunk’ (produzida de maneira clínica e obsessivamente cheia de nuances, ambientações com a sensação de um perigo iminente, blips e blurps de ruídos eletrônicos, num fluxo irregular, pulsante, curiosamente inibidos pela batida 2-step que nem mesmo soam como quebradas mais). Neurofunk é a culminação livre da diversão da estratégia do jungle de ‘resistência cultural’: a erotização da ansiedade. Mergulhe na fobia, e faça da apreensão o seu elemento.

A bateria de sensações oferecida por uma permanência de seis horas na AWOL (N.T. Lendário clube inglês), Millennium ou qualquer club de jungle ‘não-intelligent’ induz uma mistura de choque nervoso com choque-de-futuro (’future-shock’). Alvin Toffler definiu o ‘F-shock’ como o que acontece quando o mecanismo adaptativo humano entra em conflito em resposta a uma sobrecarga de estímulos, novidades e surpresa. Engatilhando reflexos neurais e respostas de lute-ou-corra, o curso de assalto rítmico do jungle aumenta a capacidade adaptativa do ouvinte na preparação pelo pior que o século vinte e um tem na manga. Se o jungle é uma forma de arte-marcial, clubs como AWOL são templos para que o soldado e o clérigo-guerreiro (N.T. ’soul-jah’ e ‘killah priest’ no original, imitando a gíria), encalcando uma espécie de fortitude espiritual.

Por causa disso tudo que ir no AWOL é um negócio sério, oposto � “diversão”. Jungle é o morto vivo da rave, o som de viver com e de viver através da falência dos sonhos. Cada snare que rasga suas sinapses e bombas de graves que racham o crânio é um despertador dizendo “Acorde, o sonho acabou. Hora de cair na real!” (N.T. No original, um trocadilho: ‘Wake-up, that dream is over. Time to get real.’)

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