Quanto ainda nos preocupamos com a AIDS?
Luiz Morando (GAPA-MG) para Contato Virtual 2008
‘Vez em sempre’, ainda é comum os profissionais da imprensa questionarem: por que a epidemia de HIV/AIDS não causa tanto temor quanto na década de 80, se ela ainda é tão corrente? Por que não se fala tanto mais nela?
Após 28 anos de convivência com uma situação que beira a calamidade em alguns países do mundo, sobretudo no continente africano, em alguns países latino-americanos e no leste asiático, será mesmo que não sentimos mais temor pelo que o HIV/AIDS pode nos causar? Quanto ainda nos sentimos tocados, afetados e implicados por essa questão?
Por coincidência, na semana passada atendi a ligação de um homem, na sede do GAPA-MG, pedindo informação. O que o mobilizava e o impelia naquele momento era o seguinte: ele sentia a garganta áspera e as pernas doendo – isto teria algo a ver com sintoma de AIDS?
Você pode pensar que a pergunta era tola e até mesmo se espantar ao saber que ainda existem pessoas que trazem essa dúvida em sua mente. A situação em si pode beirar o insólito e nos fazer perguntar: em que mundo vivemos, quando passados 28 anos ainda ouvimos essa indagação?
A indagação é legítima e nos revela com muita clareza o grau de disparidades no meio em que vivemos.
Se o programa brasileiro de controle da AIDS é elogiado e serve de modelo para vários países em todo o mundo, não nos furtamos a conviver com o desconhecimento e a desinformação sobre o HIV/AIDS. Não que o Programa Nacional tenha que eliminar a dúvida. Porém, a força e o êxito de sua ação não devem ofuscar uma questão permanente no contexto dessa epidemia: o contato constante e diário com a dúvida, com a prática da educação, da sensibilização, da conscientização.
A questão acima chama nossa atenção não para o que está explícito, mas para o que motiva aquele sujeito a verbalizá-la daquela forma. A continuidade da conversa foi dirigida com a intenção de estimular o sujeito a relacionar o que foi dito com o que foi vivido e ligado às dores relatadas. Desse modo, chega-se ao incômodo que originou a dúvida e motivou a ligação.
É isso que ainda se repete com freqüência em nossa vivência cotidiana e nos faz pensar que a epidemia de HIV/AIDS ainda causa temor. Um temor que se expõe pelo que pensamos ser tolo para nós, mas que possui raízes profundas na vida, na cultura, nas formas de sociabilidade, nos hábitos e nos costumes, nos valores defendidos.
É isso que faz com essa epidemia, nova-velha de 28 anos, nos surpreenda com tais perguntas e nos obrigue a pensar: qual o valor que atribuo a essa epidemia? Que implicação tenho com ela?
Para finalizar, a questão que os profissionais da imprensa nos coloca também não é sem fundamento. A impressão que se tem é que a epidemia de HIV/AIDS se tornou ‘normal’, ‘que é isso aí’. Uma sensação de banalização, de perda de espaço dessa epidemia na grande imprensa (que só lhe dá destaque no 1º de dezembro* e no carnaval), torna-se cada vez maior e nos faz pensar no papel que cada setor social deve cumprir para que o antigo temor, representado pelo gesto exasperado da repulsa (física ou mental), não precise se manifestar por uma nova forma de temor, representada pela pergunta considerada ‘sem sentido’ para alguns.
Essa epidemia só será de fato controlada quando um processo de educação continuado estiver implantado e consolidado.
Nota do editor: O Correio Braziliense de hoje, maior jornal de circulação em Brasília, não tem NENHUMA matéria tratando da epidemia ou do Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Na página 13, seção Opinião, um texto do Jaques Jesus trata d”A Homofobia da Anvisa”. A palavra HIV aparece no meio do terceiro parágrafo e a expressão HIV/Aids no fim do quarto. Apenas para ressaltar (com correção) que a epidemia não é exclusividade gay e que a Resolução da Anvisa, que proíbe a doação de sangue por homens homossexuais, é discriminatória. E uma notinha no canto da página 16, sobre ajuda odontológica e jurídica aos soropositivos. E só.

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