Function! Loves Antony and The Johnsons

“One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful woman
One day I’ll grow up, I’ll be a beautiful girl
But for today I am a child, for today I am a boy.”

Antony Hegarty nasceu na Inglaterra, mas passou sua adolescência na Califórnia. Suas referências desta época são Kate Bush, Marc Almond, Alison Myet, Diamanda Galas, Billie Holliday, Nina Simone, Klaus Nomi – um cantor cult de New York-, Donny Hathaway – o soul man dos anos 70 -, Adam Ant, OMD e Laurie Anderson… Vozes fortes como a dele. Mas é a imagem e a figura de Boy George e do Culture Club talvez sejam sua maior inspiração de Antony.

Anthony usa perucas enormes, maquiagens derretidas, coloridas, sobrancelhas (mal) desenhadas um olhar ao mesmo tempo melancólico e esperançoso. A androginia ‘visual’ acompanha a ‘vocal’. Sua voz é inclassificável. Manipula sua imagem de modo indefinível. Canta com voz em vibrato melancólico que lembra, num primeiro momento, Nina Simone, mas que, aos poucos, se mistura ao timbre de Marc Almond , do grupo Soft Cell, com pitadas de Billie Hollyday. Junte-se a isto tudo uma performance de palco no mínimo bizarra e arrebatadora.

Com 19 anos, mudou-se para a cidade classificada como “um lugar para pessoas como ele”, aconselhado pelo seu professor de arte performática. Antony se referiu a este fato “como se tivesse sendo banido para uma ilha de leprosos. Eu era jovem e começava a me interessar pela relação da vanguarda artística e os travestis. New York era mesmo o meu lugar”.

No Pyramid Club, um lendário bar de drag-queens e travestis, vira uma estrela. Lá forma seu primeiro núcleo performático, o Blacklips. Trabalhou também como backing em outras bandas de rock e, na virada de 2000, criou o atual Antony and the Johnsons, gravando um disco com este nome pelo selo Durtro e começa a se apresentar em clubes como o Kitchen, Knitting Factory e Joe’s Pub.

Em NY ele se achou… E era mesmo uma “ilha de leprosos”… Vivendo na comunidade infectada pela Aids, Antony viu desaparecer muitos de seus possíveis mentores. Este clima de morte, desespero, abandono, sexualidade, transformação e transexualismo foram determinantes na definição de seu estilo.

No EP “The Lake” retoma o ponto onde o homônimo álbum de estréia havia ficado: a teatralidade, na sua dimensão quase impalpável e etérea. Como um anjo branco que carrega uma mensagem, Antony tem uma voz pura, cristalina, tremula, mas tão segura de si mesma que é capaz de perturbar a mais serena das almas. Sim, porque é de inquietude que aqui falamos. “The Lake”, incluída anteriormente num Split EP com David Tibet e os Current 93 intitulado “Live At St. Olave’s Church”, é versão musicada para um poema de Edgar Allen Poe, a visão de um lago com um profundo misticismo onde o veneno, a solidão e o terror coabitam lado a lado. Kevin Barker na guitarra, Julia Kent no violoncelo e piano e a voz de Antony completam um cenário de profunda melancolia. “Fistful of Love” conta com a participação de Lou Reed (um dos padrinhos musicais de Antony) na voz e na guitarra e com uma seção de instrumentos de sopro – que confere um colorido especial no final da canção. O terceiro e último dos temas, “Horror Is Gone”, começa delicadamente com um piano e com a voz de Antony e, em pezinhos de lã, vai colhendo cada vez mais elementos aqui e ali, adocicando a cada segundo: Antony repete as palavras “The horror is gone” por entre uma intrincada e comovente teia de instrumentos de cordas que, por momentos, abrem caminho por entre uma espessa camada de névoa.

Em 2003 Lou Reed convida-o para reinterpretar ‘Perfect Day’ para o seu disco “The Raven”. Lou deu a Antony ainda a música ‘Candy Says’, uma homenagem do ex-Velvet Underground a Candy Darling, uma drag queen sua amiga que morrera aos 29 anos lá pelos fins de 70. É ela quem estampa a capa do segundo disco de Antony, ‘I Am a Bird Now’, numa fotografia tirada em 1974 por Peter Hujar. Reza a lenda no mundo pop que Antony fez Lou Reed chorar. Ele viu em Antony um herdeiro legítimo das dores registradas na sua composição.

Hoje Antony é um ícone independente. Sua carreira arrebata admiradores em todo mundo. A musa Laurie Anderson afirmou que “descobrir Antony é como ouvir Elvis pela primeira vez”. O que cantor disse sobre Donny Hathaway um dia, hoje pode ser aplicado a si mesmo: “O trabalho dele é dolorido, mas cheio de esperança. Há algo de quase espiritual nele, um traço semelhante à fé. É uma música sofisticada, com músicos bem treinados, mas ainda assim cheia de soul. E sua voz tem alguma coisa que atinge o sistema nervoso. Não pára de doer, mas de maneira controlada.”.

Os Johnsons são um guitarrista, um baixista, dois violinistas e um celista. “I Am a Bird Now”, foi lançado pelo selo Rough Trade, o mesmo dos Strokes e Belle & Sebastian. Neste álbum estão com Antony ninguém menos do que Lou Reed, Rufus Wainwright, Boy George e o cantor folk místico, Devendra Banhart. Com sonoridade quase camerística e atmosferas dark, Antony nos presenteia com seu timbre que recende a uma mistura de cola e areia na garganta (você já leu isto sobre Bob Dylan…) e interpreta canções de dor e melancolia arrebatadoras.

Antony and the Johnsons venceram o importante Mercury Music Prize de 2005. O álbum “I Am A Bird Now” permitiu ao inglês Antony Hegarty, estabelecido em Nova Iorque, arrecadar o prêmio desse ano, apesar da concorrência de nomes mais conhecidos do grande público como os Coldplay, Kaiser Chiefs ou Bloc Party. O Mercury Prize é entregue desde 1992 ao melhor álbum britânico ou irlandês. A nomeação de Antony esteve envolta em polêmica, devido ao fato de o músico, apesar de inglês, desenvolver a vida artística nos Estados Unidos. “Alguns odeiam [o álbum], outros o adoram, mas ninguém lhe consegue ficar indiferente”, afirmou Simon Frith, presidente do júri. O prêmio, de 29 mil euros, foi votado por um painel de especialistas da indústria, jornalistas e artistas, e é tido como uma distinção que recompensa a originalidade e a criatividade em vez do número de vendas.

Se o novo disco de Antony e a sua banda pop de câmara, os The Johnsons, apenas contivesse o primeiro tema, “Hope There’s Someone”, teríamos o suficiente para fazer um grande disco. Tem tanto de arrepiante como de belo, e é uma abertura como há muito não ouvia. De tirar o fôlego.

A voz de Antony, epicentro de toda a música, uma espécie de Nina Simone ou Alison Moyet no masculino, faz-se rodear, neste segundo LP, por uma sonoridade menos barroca que o seu registro de estréia homônimo, mas a carga emocional íntima preenche o que aparentemente se subtrai ao registro. O piano abraça tudo o que jorra das palavras honestas de Antony, quer seja das suas esperanças (“Hope There’s Someone”, “What Can I Do?”), do seu limbo de androginia (“My Lady Story”, “For Today I Am A Boy” ou “You Are My Sister”) ou da sua forma terna de encarar o masoquismo (“Fistful Of Love). Sangram, mas apenas para provar vida. Pranteiam, mas a lágrima é lambida. Sorriem, pois nem só de gritos se faz uma libertação.

Site*: http://www.antonyandthejohnsons.com/
*(não deixe de assistir as animações!)

Obra: http://www.discogs.com/artist/Antony+And+The+Johnsons
Fontes: Google e afins

No comments yet.

Leave a Reply